Espíritas, até quando vamos dormir?

Dizemos com orgulho: “sou espírita”. Colamos o rótulo no peito, repetimos frases de Kardec, citamos passagens d’O Livro dos Espíritos e assistimos a palestras semanais como se isso fosse suficiente. Mas sejamos honestos: quantos de nós estão realmente comprometidos com a tarefa de continuar a obra de Kardec? Onde estão aqueles que estudam, que comparam, que evocam, que registram, que ousam levar adiante a ciência espírita como Kardec a concebeu? O movimento espírita de hoje parece satisfeito em viver da aparência de espiritualidade, acomodado em rotinas, preso ao conforto da passividade.

Kardec não fundou plateias. Ele não sonhou com multidões de ouvintes passivos consumindo palestras. Ele construiu, e pediu que construíssemos, grupos de estudo e de prática, pequenos, sérios, dedicados, capazes de interagir entre si, de comparar resultados, de formar um corpo de conhecimento vivo e verificável. Está escrito com todas as letras em 1861, quando falou da organização do Espiritismo, e em 1868, quando propôs a constituição transitória da doutrina. O futuro dependia, dizia ele, dessa rede de grupos autônomos ligados por delegados que se reuniriam para verificar a concordância universal dos ensinos dos Espíritos.

E o que fizemos, século e meio depois? Esquecemos. Trocaram a ciência pela devoção, a observação pelo discurso pronto, a comparação pelo silêncio. O Espiritismo, que nasceu como ciência ousada, foi domesticado. Virou espiritualismo de auditório, adaptado para não incomodar. Muitos se enchem de orgulho em dizer que são espíritas, mas se contentam em ouvir palestras e compartilhar frases de efeito. Espíritas de nome, mas não de ação. O método espírita está abandonado, e Kardec, se aqui estivesse, não reconheceria como sua obra o que hoje chamam de movimento espírita.

É duro dizer, mas necessário: sem ação não há Espiritismo vivo. Espírita não é quem apenas lê ou se emociona, mas quem participa da construção coletiva, quem pesquisa com seriedade, quem aceita o desafio da comparação e do exame crítico, quem se dispõe a colaborar. O resto é simpatizante. O título sem ação é vazio, é farsa.

A Rede de Reconstituição do Espiritismo surge justamente como resposta a essa inércia. Não é mais uma casa espírita com dirigentes e palestrinhas semanais. É um esforço para resgatar o método de Kardec: grupos fechados, preservados, mas ativos; delegados que reúnem e comparam resultados; uma revista digital colaborativa que registra e dá transparência ao avanço coletivo. É a tentativa de devolver ao Espiritismo sua essência científica e colaborativa, arrancando-o da apatia que o consome.

Portanto, é hora de escolher. Continuaremos acomodados, assistindo e aplaudindo como plateia? Continuaremos nos enganando com o título de “espíritas”, enquanto na prática não fazemos nada do que Kardec pediu? Ou teremos coragem de voltar a agir, de reunir, de comparar, de pesquisar, de dar continuidade ao trabalho que ele nos deixou? Não há mais tempo a perder. O Espiritismo não sobreviverá de discursos. Ele só se sustentará pela prática, pela ciência e pela colaboração.

Se você se diz espírita, este é o momento de provar — não com palavras, mas com ações.

2 thoughts on “Espíritas, até quando vamos dormir?

  1. O surgimento da RRE, no que ela estimular a luta contra a igrejificação e a dogmatização no MEB, o estudo das obras de Allan Kardec e a continuidade do seu trabalho, a aliança do espiritismo com a contemporaneidade da Ciência e o seu engajamento na mitigação dos problemas enfrentados pela Humanidade, através da ação sociopolítica de seus adeptos, só pode receber aplauso e votos de sucesso!

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